sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

"Mulheres negras, brancas, amarelas, azuis, furta-cor
Mulheres altas, baixas, gordas e magras, risonhas e compenetradas
Mulheres que têm em suas vidas a marca da luta, muitas vezes silenciosa
contra conceitos injustos, ensinados erroneamente.
Que buscam diariamente duvidar da postura que o mundo
lhes impunha, lhes exige.
A palavra
O gesto
O pensamento
O caráter
Vê a sua vida e seus direitos desprezados, considerados assuntos menores
diante das necessidades maiores da nossa sociedade pela metade.
Ditam os nossos gostos
as nossas necessidades, que na maioria das vezes,
revela a nossa submissão e uma
suposta lição que precisamos para viver.
Não queremos nos afirmar, porque não somos uma mentira.
Queremos respeito.
Em nossa natureza feminina, nossos questionamentos,
necessidades e dores,
sonhos, desejos, paixões.
Nós abrimos as portas
desconstruímos as mentiras
inventaremos uma nova realidade na qual possamos
viver.
A mudança silenciosa acontece dia após dia,
de dentro para fora,
mas daqui a pouco vai estar em todos os lugares.

***

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

"Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor.
Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças.
Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra.
Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.
Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres?
Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, Moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas
Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens.
E, com isso, Barbies de facaria, provocaram em muitas outras mulheres as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima.
Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes
universitários (56%) é composto de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na
pesquisa científica, na política, no jornalismo.
E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.
Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.
As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo mensalmente na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangue urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.
É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.
E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações."

Depoimento de Rita Lee

domingo, 16 de dezembro de 2007

Carta do Coletivo Feminino Maria Quitéria.

Carta do Coletivo Feminino Maria Quitéria.
Jequié-BA, 10 de dezembro de 2007.

Nós, Mulheres, que durante muito tempo vivemos sob o jugo de uma sociedade patriarcal, onde a mulher era vista e considerada como menor em todos os âmbitos da sociedade. Não tínhamos o direito ao voto, a trabalhar fora de casa, éramos impedidas e mal vistas ao buscarmos independência e a construção de uma carreira profissional. E ainda hoje vemos disseminadas diversas formas de opressão às mulheres. A desigualdade de relação quanto ao Gênero, mesmo sendo admitida, não é reconhecida muitas vezes pelas próprias mulheres, acostumadas com o padrão de conduta intransigente.
É desafio para as mulheres de nosso tempo eliminar essa cultura de desigualdade entre homens e mulheres, esse julgo que está sobre nossas cabeças há séculos, ditando regras de como devemos nos portar socialmente, sentimentalmente, e não menos importante, sexualmente. Para tanto, precisamos delimitar quais são as formas de opressão, como elas agem e como nos prejudicam, para então, apontarmos medidas realmente eficazes e significativas para uma mudança real de comportamento.
“Todas (os) temos direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Este princípio pode ser considerado norteador da luta feminista. Não queremos ser iguais em tudo, nem podemos. Entretanto, desejamos que as nossas diferenças não façam com que os homens se sintam superiores a nós e muitas vezes nos explorem, nos inferiorizem, nos desrespeitem, nos ridicularizem, nos tornem apenas objeto sexual. Não permitindo que preenchamos lugares que inexplicavelmente são lugares de “homens”, como o próprio espaço da política. Devemos lutar por uma transformação na concepção de mulher na realidade em que vivemos. Não esqueçamos que o homem também sofre por imposições culturais, herdadas historicamente.
Para todas as Mulheres que sendo crianças, sentiram a diferença de tratamento entre ela e seus irmãos. Todas que sofrem sendo tratadas como objeto sexual. Todas que desejam e buscam uma carreira profissional, contudo sabem que muitas vezes sua condição de mulher não permite a construção da mesma. Todas que ocupam os mesmos lugares que os homens, todavia são diferencialmente remuneradas. Todas que desejam que o falso moralismo tenha um fim e que a mulher deixe de ter a necessidade de se comportar com tantas inibições e imposições culturais. Todas que estão cansadas de tantos adjetivos pejorativos, muitas vezes por fazer o que os homens fazem e nem por isso são criticados. Para todas as mulheres que querem ter o direito de escolher sobre as suas próprias vidas.
Sabemos que o caminho é árduo, mas acreditamos que a nossa causa é justa, e a nossa luta é urgente. Não nos esconderemos mais, não nos omitiremos, não ficaremos em segundo plano, não seremos mais sombra nem coadjuvante na construção de uma sociedade mais digna e humana, onde sejamos respeitadas pelo que somos e pelo que acreditamos, sem discriminação ou subjugo do poder. Construiremos o caminho para as que virão, trazendo no peito e na cara, não o medo, mas a coragem de sermos quem somos. Porque “sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós, que vamos dizer o que somos”.
Por isso, nós mulheres do Coletivo Feminino Maria Quitéria UESB - Campus de Jequié, chamamos todas e todos em favor da causa feminina. Essa luta é nossa!
O Coletivo Feminino Maria Quitéria apóia:
. Lei Maria da Penha (Lei 11.340)
. Diretorias de Gênero dos DCE’S e CA'S da UNE
. Associação das Donas de casa da Bahia – ADCB
. Movimento de Mulheres Camponesas – MMC
. Marcha Mundial das Mulheres – MMM
. União Brasileira de Mulheres – UBM
. Coletivos de Mulheres de todo Brasil
.Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial/ Presidência da República – SEPPIR/ PR
. Secretaria de Promoção da Igualdade – SEPROMI.